Miserável - Pausas Sem Previsões
Notório, miserável. Simples assim.
Não sei mais quem sou, o que sou. Me perdi dentre as variáveis que um dia considerei importantes de se cuidar. Piedade se perdeu, a compreensão, tampouco. Eu não me odeio mais, eu não me considero se quer algo a qual mereça meu ódio. São livramentos, claro, não apenas sofrimentos e perdições. Isso consta que, tudo que for feito por mim (tirando um contexto muitíssimo específico que atualmente, é tão íntimo quanto o que me permito escrever aqui, então não será do conhecimento de nenhum de vocês), será feito quase que unicamente por mim, e para mim. Perdi as mãos, os braços e as pernas. Não sei por onde ando, como ando, onde seguro e quem me segura. Está tudo escuro agora, não só o futuro, não só minha mente.
Sou miserável pois sou intragável a mim mesmo, sou insuportável também a mim mesmo. Levanto-me dias após dia, com o gosto amargo da abantesma que sou em minha própria vida. Sujo meus cantos favoritos com pensamentos egoístas e desastrosos, despejando raiva e depressão em tudo que levo a boca. Eu não consigo precisar de mais ninguém, me escondi o suficiente para que eu mesmo não encontrasse quem sou. Constrangimento puro, quase uma vergonha. Uma quase, pois não me importo o suficiente.
Colírio para a alma tal qual a solidão, marchando pelos cantos sem a minha companhia. Eu tornei a solidão solitária, me procurando sempre que sinto-me péssimo. Mas sua presença não me é conveniente a muito tempo. Minha solidão acompanha um saco vazio, podre. Não posso dirigir, caso assim faça, me jogarei da primeira ponte. Não posso atravessar a rua pelo mesmo motivo. Armas? Mesma coisa. Me permitir existir novamente? Assim vai. Eu me matei, parte por parte. Cortei meus membros e perfurei meu coração. Dissequei meu cérebro, banhei ao ácido meus pulmões. Minhas ideias, enviei-as pelo ralo, e pisoteei meus sentimentos. A razão não compreende meus sentidos, e meus sentidos também já não a compreendem. Ser amado resolve, e amar, mais ainda, mas o amor virou paróquia no estádio dos pobres de auto consideração, visito-a sempre que posso, deposito minhas considerações, em seguida, me mando.
Apesar da angústia e desprezo comigo mesmo, não consigo me considerar surpreso. Minhas sombras andavam a minha frente a muitos anos, e meus olhos se recusavam a compreender que ainda sim, são sombras, pois então, refletem a forma de algo palpável, existencial. Eu sou a minha própria sombra, e cada pavor que nela se mostra, comigo carrego, no peito. Sinto muito por quem amo? Alguns, outros não. De fato na verdade, alguns, deixei de amar, outros, desisti de tratar meu amor como algo importante. Meus pulsos não doem mais. As correntes alargaram-se, e fogem muito além de meus pulsos, correndo por todo o antebraço. Meus sangue não mais escorrem entre meus dentes, e meus ouvidos, restam suas marcas em traço seco, marcando minhas saídas, pregando poeira em meu rosto, e atraindo os espíritos para a recém morta, alma. Salve as memórias dessa vez, pois alma e o corpo, já eram.
Me levanto pela manhã com pancadas na boca do estômago, dentes serrados e doídos. Uma tosse incontrolável, um gosto amargo na entre os dentes. Disponho do primeiro cigarro ainda deitado, e do primeiro gole também. Os bolsos sangram diariamente, arrancando até mesmo o que não os pertence. Perdi o controle de tudo, o joguei pelo abismo... E o próximo sou eu, e todos aqueles que se atreverem a segurar meu colarinho em contra partida.
Me desculpe? Eu não sei se quero e mereço isso. Então não quero suas desculpas, feche seu navegador, olhe para seu objetivo, e se esqueça de mim. Não lembrou-se de mim o suficiente para não se surpreender com o que foi dito aqui, então não precisa de mais ferocidade.
Dedicado a todas as minhas vozes, e com muito carinho, beijo-as em suas respectivas testas.
Atenciosamente,
Quem mesmo?
Não espere mais por mim, não fique em eterno aguardo. Não sei quando estarei aqui, e nem mesmo se estarei. Meus textos são apenas papéis, e códigos. Cuide-se... Se perder pelo caminho é mais fácil do que imagina.

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