Amei, mas amei do meu jeito.
Despertado, fixo meus olhos no escuro que me cerca, despejo meu corpo para o chão quase de imediato, e produzo a primeira dose de amargura do dia. Fui consumido pela noite novamente, credito meus sonhos que, ultimamente, não tratam de nada além de meus demônios. Nada original da parte deles, sinceramente. Percorro o corredor até a cozinha, disponho da água sobre o fogo, e preparo o solo de café. O cadáver de Corine permanece sobre a mesa, curvado sobre ela, sentado na cadeira do lado da parede. Já se passaram 5 dias, mas ainda não consigo me desfazer dele. Ela está tão bonita, os lábios já azuis, mas lindos como sempre.
Filtro a água no café, e carrego duas xícaras para a mesa. A minha sem açúcar, e Corine com meia colher de chá. Observo seus olhos estralados para o chão, os dedos magros, e um sorriso sutil que a marcou o rosto em seu último momento. Estávamos bebendo vinho, diante de 3 velas, cozinhei um Carbonnade Flamade, seguido de uma porção muito bem temperada de Mouclade Charentaise. Comemos, dançamos e sorrimos como se a vida tivesse real valor, e colamos as paredes de memórias. Ao escoar da noite, Corine se despediu, de maneira abrupta, saindo de meus braços, após ter me dito que seria minha companhia pelos próximos três dias. Me lembro bem da conversação.
- O que há? Não quer mais ficar? Lhe questionei, cabisbaixo e de bom humor completamente estraçalhado pela decepção.
- Surgiu atividades, querido, preciso ir, ela disse, enquanto puxava seus cabelos castanhos para trás. Eu a olhei, com certo desdém, não aceitei. Levantei-me calmamente, aloquei o paletó no tronco, e levei a mão direita ao bolso interno, esquerdo. Expus a lâmina de um canivete suíço muito bem afiada, entregue com muita humildade pela minha mãe, como presente de viagem, e o arremessei a nuca de Corine. Foi em cheio, a pressão da ponta da lâmina perfurou a carne, acertando a artéria direita de seu pescoço, seu sangue jorrou às nove em ponto. Ela segurou a lâmina, confusa, e se virou para minha direção, embasbacada. Fui em sua direção, ainda com serenidade nos passos, segurei suas bochechas, beijando seus lábios vermelhos como se fossem a última taça de vinho da noite. Suas pernas fraquejaram, a apoiei na poltrona ao lado e mirei teus olhos - Eu a amo, Corine. Beijo sua testa com certa força, e suas respiração repentinamente se corta, e ela me aperta como se seus pulmões virassem suas mãos. A levanto no colo, tentando não engasgar com seu sangue jorrando em minha boca, e a apoio na cadeira da mesa de jantar.
Me distancio, por instantes, e sorrio, desafiando o sorriso que pregava em seu rosto. Corine se apagou dali em diante, teu brilho se fora para sempre. Meu amor a matou, lhe foi finalmente insuportável.
Me despedi do resto de vinho na taça ao seu lado, com a marca de seu batom, passando o indicador sobre sua borda, e me mandei para o quarto, acompanhando um suspiro de cansaço. Deitei-me e desapareci da realidade.
Os próximos dois dias vazaram pela realidade como pólvora em um revólver disparado, dei-me por conta da vida e já estava a dois dias deitado ao lado de Corine, bebendo sem parar. Certa vez, por conveniência do tédio, me levantei, e arranquei a lâmina da nuca de Corine, escorrendo o que restava do sangue em meu copo de whisky. Me sentei novamente. A noite chegou como de costume. Jantamos uma tilápia inteira acompanhando molho de abóbora e filetes de champignons. Eu tomei whisky, e Corine, duas taças de vinho, apenas, que por decorrência de sua falta de vontade de beber, foram terminadas pela minha boca.
Desprende-se a quarta noite. Me levanto, tomo uma xícara de café, e me afogo em um banho longuíssimo o suficiente para se gerar penumbra no apartamento. Quando saio, me deparo com os cabelos úmidos de Corine, e os acaricio com as pontas dos dedos. Sinto sua falta, e de sua risada silenciosa. Segui meu dia exatamente igual aos outros, tropeçando nas garrafas de vinho e whisky pela cozinha. Procurei por peças de roupa pela casa, calcei meus sapatos e fui atrás de bebida.
Pelo caminho, a incompletude me seguiu a cada ponto que me era familiar com Corine. A praça Hodovtch, e o tronco de carvalho com nossas iniciais, a paneteria da rua 12, onde costumávamos enrolar os ponteiros do relógio com besteiras e carícias, acompanhando um bom café. Ela penetrava as paredes como sombra, sujando as cores com escuridão e ausência pura de existência. Eu matei as cores do mundo, e vivo diante da escuridão, mesmo que percorrendo um arco-íris.
Cheguei a um mercado, de fachada pobre, sem nome e sem expressões convidativas. Passei pelos corredores, carnes e tubérculos para lá ea cá, e as bebidas. Três garrafas de vinho, uma de whisky, um hidromel de terceira linha e um pobrezinho maço de cigarro, de qualidade inóspita. Paguei as minhas coisas, para uma senhorita de péssima etiqueta, que me devolveu o troco errado, e derrubou minhas moedas de propósito. A desejei morta antes mesmo do ocorrido.
Chegando em casa, percebi que havia deixado a porta entreaberta, e um promíscuo desespero me contaminou, e se Corine fugiu? Ela não poderia me deixar. Me apressei com os pesos nos braços, e fui direto a cozinha, tropeçando novamente nas garrafas. Lá estava ela, com os cabelos lindos caídos nos olhos. Suspirei em alívio, e a beijei a testa, com leveza. Me sentei do seu lado, no chão, e abri uma garrafa de vinho. Diante daquela cena que se tornara comum para a realidade, voltei aos devaneios do passado, com Corine. Sinto muitíssimo por como a trato, eu a amo tanto, com unhas e dentes eu lutarei para que ela receba este amor.
Perto do fim da garrafa, pensei em cozinhar algo para nosso jantar, mas minhas pernas não funcionavam mais, estava exausto, e em um grande respiro de resistência, fechei meus olhos e me concentrei na ausência pesadíssima que havia em meu peito, Corine estava comigo, mas eu sentia sua falta, muita falta. Derrepente, seus dedos tocaram meus cabelos embolados, com tal delicadeza, que posso jurar que estava morta, por tal ausência de força. Derrubei algumas lágrimas, de modo franco, pois a realidade permanecia em sua inércia defeituosa, onde tudo me machuca, e tudo me ferve o sangue. Estava com os olhos cravados no chão, preso pelos pesos em meus ombros, e Corine se sentou ao meu lado, sem vida, e cor, a não ser pelo forte vermelho de seu batom, que me chamou a atenção.
A olhei profundamente nos olhos, como quem busca verdades nas estrelas, e me levantei, a puxando junto comigo, e a abracei, em completo êxtase e eletricidade que eu não sentia em muito tempo. Comecei a cantar para ela, e a dançar, My Way do Frank Sinatra. Me aproximei de seu ouvido, e suspirei as palavras de amor, I've Lived, A Life That's Full... - I Travelled Each And Every Highway... Corine acompanhou, em tom melancólico, More, Much More Than This... And
I Did, My Way... Cantamos juntos. Senti a luz voltando à cozinha, como se as sombras não fossem mais tão importantes assim, mas como um trovão em meio a uma chuva aconchegante, uma dor aguda ao braço me consumiu, tudo se escureceu, e meu corpo pesava cada vez menos. Uma voz me rodeou velozmente, feminina, chamava meu nome com angústia: Morgan! Morgan!... Morgan, acorde Morgan. Era a enfermeira Luci, e seu sedativo poderoso. Seus olhos azuis me encaravam repentinamente, e suas mãos apertavam meus braços com muita força.
- Morgan, não deixe sua mente fazer isso de novo, não olhe para o abismo, por favor, não faça isso de novo.
- Eu sou o abismo, Luci... Eu sou o abismo, eu...
- Por favor, se acalme, Morgan, você tem visita.
O que há? Eu disse, a encarando, zonzo.
Sua mãe, Margaret. Está aqui. Morgan...
Corine se foi?
Corine se foi há 20 anos, Morgan. Hoje é seu aniversário, de 54 anos.
- Então hoje é aniversário de Helena, minha filha faz no mesmo dia, Luci. Ela também está?
Morgan... Helena morreu ao lado de Corine, não se lembra?
Eu as matei? Eu matei minha filha? Silêncio, foi tudo que ouvi, por alguns instantes.
- Você matou a todos, Morgan. Está em um hospital psiquiátrico.
Murilo.


Comentários
Postar um comentário