Margaret e o Azar de Entrar ao Terceiro Universo

  Eu molhava meus dedos dia e noite, folheando página por página da carta suja de café e amassada que é a minha vida. Chegou infelizmente o dia do reencontro com os demônios permitidos por lei num contexto de trabalho e ganância. Me levantei amargo e negro como uma xicara de café molhada e profunda ás cinco da manhã. As torres entupidas de apartamentos, casas e carros dormiam por mais tempo do que eu, agora a minha cama dormia e meus sapatos seriam mais uma vez levados ao fim da paciência junto da minha cabeça. Me arrumei como de costume, e sai como infelizmente a minha rotina demanda. Olhares já antigos e medrosos me assombraram assim que cheguei aos confins de meu destino, sorrisos falsos e histéricos. Alcancei minha mesa mais rápido do que me desfiz de minha cara que condiz com a minha realidade. sorriso sutil e amargura empregada como humor e conteúdo de conversa, e não de meu estado de espirito. 

Ajeitei meus afazeres, meus contratos infernais, até que um olhar brilhante, assustado e excitante me agarrou diante de meia dúzia de ódios vivos e feios. Ela era magnifica, brilhava como uma recém polida chaleira, no mais novo fogão na casa mais praieira que um coração brega pode demandar. Era Margaret, sua timidez era explicita assim como a sua habilidade de me fazer responder as perguntas que ela mesma me fazia questionar, sem dizer uma palavra. Margaret tinha curtos cabelos cacheados, uma franja harmônica com um fino e pequenino nariz, as maçãs de seu rosto faziam par com os lábios mais lindos que já vi. E tudo isso apoiado em um pescoço tão belo quanto. Meus olhos por algum motivo, em primeira instancia não havia buscado nada para baixo daquele pescoço, eu ainda me prendia naquele rosto, naquele silencio ensurdecedor, nas emoções que aquele olhar poderiam um dia me causar, e nada fiz além de imaginar, afinal havia algo muito mais intenso dentro de mim naquele instante, que era ainda sim sair correndo e beber a primeira garrafa de conhaque que me aparecesse. O cansaço me perseguia, a indiferença me molestava, o estresse me enforcava e o meu suor era fruto de mais ou menos 400ml de álcool puro por noite, pois isso que me restava quando se tratava de vontade, procurar a morte no fundo de uma garrafa.

Um terço do relógio se foi, e eu me mandei. Eu precisava beber, e dormir, mas principalmente beber. Sonhei com os olhos de Margaret por alguns instantes, descansei meus lábios sobre um cigarro e filtrei meu ar na volta para a minha casa. Fudi meus medos por mais de uma semana, eu adorava isso, Margaret tomava uma xicara de café todas as manhãs comigo, dormia no meu travesseiro, usava minhas camisas e suava em meu cobertor. Tudo isso apenas em minha cabeça e em meus sonhos, nunca pude dizer que a amei apenas depois de a conhece-la, pois isso não é verdade, é preciso amar um olhar, um beijo, um cheiro, um toque, um piscar de olhos não intencional, e um sorriso não direcionado a você, pois até então, você é como os outros, e precisa agir como se ela também fosse. Eu me apaixonava a todo momento, e principalmente a todo custo. Nunca tive medo de Margaret, eu a queria totalmente, queria chorar em seus braços quando o cansaço me dominar, abrir novas vontades apenas com ela, fazer meu macarrão para ela, sentir seu cheiro de manhã... como eu queria tudo isso, e só isso. Eu não amedrontava ser emocional, ser quem Deus exigiu eu ser, quem a minha alma é incapaz de lutar contra, eu queria ser apenas o Charles, mas o melhor Charles que ela poderia encontrar. Eu me sentia inocente, eufórico e ofegante ao seu lado. É o que fazemos quando encontramos o que não temos, caralho, a gente deseja, a gente aclama com unhas e dentes. Eu só queria me apaixonar por ela antes de pisar em uma cova... ou antes de planejar uma.

Foram poucas semanas nesta realidade, entre a frente quente e a frente fria da primavera que nossos medos se anularam, duas semanas se amando as escuras. Sua mão tocava meu rosto todos os dias, e seu rosto via mais meus olhos do que meu reflexo no espelho do banheiro. Meu coração nunca esteve tão quente, meu olhar nunca procurou tanto por algo, e eu sentia o cheiro dela todas as terças-feiras, quando lavava minhas camisetas e o resto da noite passada se escondia em meio aos tecidos sujos e amados. No crepúsculo de uma quinta-feira, Margaret e eu nos encontramos num parque após o expediente, comprei uma garrafa de vinho e um pacote de cigarro. Peguei Margaret na saída do Trem das duas e quinze, seus cachos cintilavam diante de um rosto bem definido por um nariz pequenino, uma boca anormal de bela, curvada como uma boneca vintage e rosada como um céu texano ás cinco horas de uma primavera. Sujei meu rosto com o seu batom, e sua boca com a colônia de meu cigarro. Eu me apaixonei naquele dia, mais do que no dia anterior, e no dia seguinte mais ainda. Aos poucos a minha realidade se manchava com encantos e crises sentimentais, apesar das crises cansadas e depressivas que ainda me perseguiam, pois sou quem sou. 

Eu fazia questão de manchar meus lençóis com o amor e desespero de Margaret, as marcas de seus dentes no meu travesseiro, seus pequenos cachos diante do meu cobertor, sua calcinha na maçaneta da porta... Suas unhas franziam as minhas costas até os meus olhos doerem de tanto que eu os fechava, os múltiplos nós no cabelo dela me davam ainda mais vontade de puxar com cada vez mais força. Era quase angelical aquele momento, eu nadava eu um sonho completamente real diariamente. Eu tinha medo disso as vezes, a minha vida nunca andou estreitamente, eram crises de alcoolismo ali, 3 dias sem dormir a cá, e dores que duravam muito mais do que um encanto juvenil, e mesmo assim os mares secaram de um modo que toda a água do mundo estivesse em meu quintal. No entanto ainda sim, a tristeza me espreitava a cada curva, em cada festa na janela e cada fundo de xícara. Mais uma vez a vida provando que o mal se faz presente em todo lugar, até mesmo no paraíso. 

Eu nunca me dei bem com a vida, só com certas coisas, e isso não é suficiente, não gera equilíbrio, e nem estabilidade, eu amei Margaret até o dia da minha morte, mas Margaret não me acompanhou até a morte, eu sentia muito por isso, pois foi culpa minha, nossas vidas se juntaram durantes anos, mas a parte negra da minha vida nunca se desfez, e isso não assombrava só a mim, mas a ela também, e com dois anos de casamento nos separamos, felizes, Margaret nunca me odiou por isso, e eu fiz o mesmo, mas nunca cheguei perto de um coração feminino de novo, apenas corpos insignificantes. Eu morri sentindo falta do que eu já não tinha a tempos, e como se não fosse o suficiente, eu a perdi porque eu nunca fui capaz de me curar da coisa que mais me atormentava: Eu mesmo. E acho que depois de morrer sem ela, essa era a coisa que eu mais temia que me acontecesse.

Três vias se seguiram, um universo se abriu, um amor eterno perdurou como um, um amor se desvaiu na juventude de uma alma feminina e encantadora, e o último amor perdurou, perdurou pelos confins das mortes estelares, para além dos limites da morte e da coragem sentimental, mas perdurou apenas para uma das almas, a quebrada e estragada pela indisposição mortal, o solvente da tristeza havia acabado e a chama se espalhou até que uma caixa negra e oca fosse necessária para conter esse fogo. E finalmente ele foi, abaixo de sete palmos de terra, sinalizado por uma pedra cravada por um epitáfio, "Dias e noites se tornam a mesma coisa quando algo se torna mais importante que o sol. Mas quando se perde isso, você deixa de temer penas a noite com antes, pois até o vazio de um dia ensolarado te lembra do que você não foi capaz de guardar dentro de si. Se vive dia após dia diante do sol, mas com a perda de algo maior, a lua se torna o mais próximo que você chega a ter contato quanto a algo realmente encantador.".  



And The Old Man Prayed by Barbara Lembley




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