Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento

"Completo e acompanhado pelas mais gordas garrafas de conhaque, o mais farto e cancerígeno filtro vermelho que o dinheiro pode comprar, o bagageiro lotado de traumas e decepções passadas. Metade de uma geração pode ser descrita desta maneira, alternando apenas o tipo de bebida alcoólica e o tipo de fumo." Fechei meu caderno com agressividade após escrever isso, e arremessei ele na porta. Cruzei os dedos a cima da cabeça, o desespero tomou conta de todos os cantos, eu via as minhas falhas nas quinas dos móveis, meus vícios nas manchas do teto, meus olhos medíocres em cada superfície refletora que me cerca, minha respiração cortando meus pulmões e comprimindo meu coração a nível atômico, um próton teria mais importância no meu corpo do que esse maldito músculo inútil.

"Meia-noite, a amargura da saliva vinda de uma boca pouco aberta, acompanhada de lábios que pouco falam, a semente da inconstância plantada perto de meu âmago desde a infância, cresceria exponencialmente desde então. Contaminando minhas escolhas, minhas paixões, meus cadáveres colecionados de pessoas que já pensei ter amado. Cutuquei brutalmente meu cérebro com um pedaço de desgosto que encontrei após errar mais uma vez no mesmo contexto, com as mesmas pessoas e as mesmas coisas. Mantinha minhas mãos frias, pois quentes eram capazes de queimar até o coração mais congelado que uma câmara de resfriamento do necrotério, quebrei mais um dos braços do meu monstro interno, enquanto o outro se regenerava. Senti pela última vez a queimação severa do arrependimento, apontei o cano atrás da minha orelha e senti cada camada da minha cabeça e dos meus lobos cerebrais se rasgarem, o sangue jorrando por todo o meu corpo. 

Não era o suficiente ainda, me olhei no espelho, com aquele belo furo em minha mente, enfiei dois dedos e puxei meticulosamente uma parte do meu cerebelo, o joguei na mesa e queimei meu cigarro nele, e finalmente, eu morri em paz." Fechei meu caderno suavemente, peguei meu copo de conhaque e dei o último gole de que eu precisava, encaixei meus sapatos, coloquei meu cachecol e me atirei da janela do último andar, a única coisa ruim naquele instante era o ar puro que cortava meu rosto em alta velocidade, e a áspera textura do asfalto que se meteu no meu caminho pouco depois de eu pular daquela janela.

"Jonathan tocava violão no canto da sala, Marcos fumava o seu cigarro na outra ponta, e um belo som nos acompanha como todo fim de mês. Era feliz estar com os meus amigos, e a mágoa de ser um fudido não te corroía tanto assim. Fui até a cozinha pegar uma cerveja, no entanto, a minha capacidade de prescindir a felicidade que poucoa me aparecia me dominou, em instantes percebi minha dor de estômago, pois não havia comido nada desde às dez da manhã, e já são oito da noite, senti minha saliva gosmenta pela falta de água, e um bolo de muco dentro do meu peito. Em questão de instantes, uma sirene estrondosa se instalou nos meus ouvidos, mãos e mais mãos me tocavam por toda parte, um paramédico pressionava um faca imensa de cozinha no meu peito para parar o sangramento. No fundo, estavam meus amigos, atrás de uma fita amarela escrito qualquer coisa que não me importa, molhados pela chuva e tomados por um tom vermelho de choro. Um sentimento de arrependimento surgiu por um milésimo, mas logo após isso, o paramédico que estancava meu sangramento foi tomado por uma feição muito semelhante a minha, onde em seguida, tirou a faca do meu peito, meu peito sangrava como um vulcão vivo e deprimente, o paramédico posicionou a faca em sua mão, e logo em seguida embutiu aquele pedaço de aço na minha garganta, o sangue subiu diante dos meus olhos, minhas mãos incondicionalmente levantaram, e se apoiaram no cabo da faca, deixado pelo paramédico quase certeiro na minha traqueia, puxei a faca novamente do meu incompleto corpo, me levantei da maca, sorrindo, e como um último espetáculo do show mais assistindo da minha vida, passei a faca em meu pescoço suavemente, abrindo as minhas entranhas pela primeira vez a luz do dia. O fim de um show de mágica mais puro que um não mágico havia feito... E assim, as cortinas vermelhas de sangue de fecharam." Repentinamente fui despertado da minha escrita pelo meu despertador, eram seis da manhã, puxei minha jaqueta do cabideiro, acendi um cigarro e abri a porta do quarto, caindo desesperadamente em um bloco escuro e maciço de escuridão e espaço infinito, sem vento, sem atrito, apenas escuridão, e então, o despertador tocou novamente.

Não havia despertador, eu estava no ponto de ônibus, eram quase sete da manhã, meu cigarro queimava diante dos meus dedos e as pessoas conversavam pacificamente ao meu lado. O desespero periodicamente se misturava com a minha realidade, os sonhos tomavam conta dos meus nervos, o cigarro queimava mais devagar enquanto o show acontecia, as vozes silenciavam, o Spotify pausava por um instante. Acostumado como sou, levei o filtro aos lábios e apoiei na parede atrás de mim, e avistei o meu ônibus na curva do fim da rua. 

 — Vamos, Joe, ainda são sete da manhã, não se canse ainda. disse eu mentalmente, para eu mesmo, sambei para dentro do ônibus, um pouco tonto e cansado, mas desperto. Uma manhã, uma rotina, uma insatisfação, mas uma aceitação. Como último ato de interação com a minha lucidez, supliquei internamente: "Parafraseando Gal Costa, — Belezas são coisas acessas por dentro, Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento. Você se apagou, então senta nesse banco e espere o fim do seu dia". Não sei o que isso significa exatamente, mas obedeci a mim mesmo e me sentei.



 M.

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