O Nascimento de uma Vida Morta
Um certo fim para um certo alguém, mantendo certas coisas em certos lugares, fazendo com que certas dores sejam extintas, mesmo que em certos momentos elas tenham quase o matado. O certo tipo de sofrimento que certas pessoas sentem jamais serão capazes de serem esquecidos, pois certas memórias passaram disso e viraram traumas, e certos traumas não são compensados mesmo depois da morte.
Imagine-se em um lago amplo e cercado por pinheiros, de modo que a luz do luar ao passar por esses pinheiros, se transformam em um azul índigo, transformando aquela água cristalina em um lago de cristais. Há um deck de madeira, novo em folha debaixo dos seus sapatos, a sua mente dispõe da maior calma e paz que você já sentiu em toda a sua vida. O silêncio humano ecoa pela floresta, assim como o barulho das folhas se movendo entre si, gotas claras e grossas de chuva deslizam das folhas até o chão.
Você vai na direção da ponta do deck, descalça os sapatos e se senta, com as pontas do dedo encostando aquela bela água, e que está agradavelmente morna. Você não está pensando em muita coisa, apenas no quanto aquele lugar o faz se sentir, e de um modo bom, e aí, você se pergunta: Isso é perfeito, é muito bom... Bom até demais. Você repentinamente se dá conta de que está certo, aquilo está perfeito até demais, e a vida não dispõe de coisas assim para qualquer um, você nunca saiu da sua cama, daquela pilha de roupas debaixo de você, do abafado cercando todo o quarto. Isso não é real, e quando você se dá conta, aquela escuridão tomou conta do seu peito e da sua alma, você novamente voltou a realidade, mas o que houve? Eu continuo aqui, ainda vejo meus pés tocando a água, as lindas árvores, a madeira macia debaixo de mim, o silêncio... Mas e a calma? Aquela paz aliviante? Bom, você sabe, elas nunca existiram.
Você tem uma ótima imaginação, você cria a miragem perfeita para o seu momento perfeito, mas existe uma coisa que é impossível de se criar, os sentimentos perfeitos, pois a sua imaginação tem limites, e não ironicamente os seus limites são as suas dores, são os seus sentimentos e a escuridão reluzente no teu peito, sem elas, você alcança novos topos, novos horizontes. Mas sem essas dores e traumas, por que afinal você teria que imaginar um lugar como esse, se tudo que ele representa é um mundo sem as dores e traumas?
Se você está aqui, significa que há uma grande chance de você fazer parte da mesma realidade que a minha, a realidade de uma pessoa capaz de imaginar muitas coisas, mas ao mesmo tempo nunca sair da realidade, pois nosso próprio interior nos barra de sair da mesma. O nosso realismo e sinceridade é tão forte, que ele se expressa de modo inconsciente, quase como um sentimento, um sentimento que surge quando nossa mente começa a chegar perto demais da ilusão.
A certa cura para essas certas pessoas não têm forma, cor ou uma data de aparecimento, talvez elas sejam como uma frase que muda a vida de um certo alguém, ou uma certa pessoa para um certo ser humano, um sorriso, um sentimento. Ou talvez a cura seja como uma certa rosa, com camadas e mais camadas que juntas, formam a cura, e caso separadas te envenenam com uma ilusão de um único vislumbre de uma vida sem a escuridão. Em um certo dia você descobrirá certamente, o que é amar, o que é viver por um certo alguém, talvez em algum momento você saberá a sua real razão de consciência, como quando um menino se cobre de paixão ao tocar em um piano, se descobrindo um futuro pianista, ou a realização de uma jovem mulher sentada em uma poltrona de cinema pela primeira vez, compreendo a cada cena que se passa no telão, o quão feliz ela seria em cada gravação daquele filme também. Mas e nós? O que vemos como a cura? Bom, um certo alguém não vê um piano, uma câmera de cinema, ou uma esposa abraçando o filho que vocês dois criaram, um certo alguém vê a cura com algo que puramente desfaz de toda a amargura que o segura, a dor torturante que ele sente todo dia, esse certo alguém não tem uma conquista como cura, a sua cura, é não ser um inquilino da tristeza, um devedor da solidão e do sofrimento. Mas infelizmente, esse é o único movimento ilegal no universo, correr da solidão, do sofrimento, e isso faz desse certo alguém, uma peça destinada a ser cada vez mais, quebrada, no imenso tabuleiro da vida, esse alguém é uma peça que nasceu já morta, como uma rosa no inverno, incapaz de florescer apesar de nascido... Essas são as almas indisponíveis, inalcançáveis e provavelmente as mentes mais impenetráveis que existem, pois o escudo de escuridão que as cercam é tão potente, que nem mesmo eles são capazes de escapar de si mesmo. A infelicidade do nascimento de uma vida morta, a maior anomalia que uma vida consciente é capaz de ter, e um certo alguém com certeza sofrerá pelo resto de sua vida por ter consciência de ter nascido como uma vida morta.
Murilo.

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