A Rotina de um Quarentenado

Sentir-se no tédio se parece tão inofensivo quanto um poodle, se olhar em uma situação em que nada ocupa o seu tempo, faz com que sua cabeça fique livre em um ponto perigoso. Como muitas manhãs, esta não foi diferente, surgem os invasivos e sinceros pensamentos assim que me coloco o óculos na cara pela manhã. Tiro o gato de cima de meu peito e arrumo minha cama, desejando não ser preciso tocar naquela maçaneta igual a todos os últimos mil e noventa e cinco dias anteriores. Aquele vazio existencial diário que me ocorre desde que me conheço como consciente por mim, talvez faça parte de crescer, mesmo que você não tenha do que se queixar em prol de mil e um problemas, talvez eu seja um problema pra mim mesmo e acabo me auto causando isso. A primeira onda de Raios Ultra Violeta que me atingem são sempre as mais dolorosas, onde a saudade do escuro e silêncio noturno já me aparece pela primeira vez no dia, do 15° andar as coisas parecem menos inconvenientes e imprevisíveis, ver a cidade de cima nos dá uma sensação de nova dimensão, como se todos aqueles carros e ruas cheias de luzes fossem algo minimamente agradável, sendo quase o oposto quando se vivência no plano. Logo minha única companhia desperta e a solidão da manhã se acaba, mas afinal está tudo bem pois a companhia também gosta da solidão da manhã, então volto ao meu canto em meu quarto silencioso e organizado de ponta a ponta. Em lugares calmos e agradáveis seus pensamentos chegam onde normalmente onde não chegam, entretanto quando isso se junta do tédio e ociosidade, se torna um problema. Escrever me alivia o sentimento de ser um auto refém das minhas ideias, mesmo que o assunto seja justamente sobre as próprias, o desfeito e desgaste de algo doloroso o torna menos assustador e inconveniente, pode-se ter certeza. O resto do dia é tão detalhado quanto uma obra minimalista, exceto para o início de fim de tarde quando as luzes urbanas tomam conta da cidade, os carros se camuflam e a vida desacelera, engraçado como nosso cérebro pode tornar as coisas mais agradáveis a ele mesmo quando o contexto nos favorece. A luz natural a diminuir a cada milésimo que se passa diante de todos os sentidos, a parcial escuridão toma conta do apartamento, sua produção acelerada em todo o contexto do organismo se acalma, suas mãos esquentam, sua cabeça lhe da uma folga, e a música nos penetra de forma diferente, como se as onda sonoras fossem muito mais fundamentais do que se imagina. E assim se chega em um dos poucos momentos onde a vida vale a pena ser vivida. apesar de calmo, com ódio e rancor de qualquer coisa que se mexa, eu mesmo. Murilo.

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